Toti

Quando eu era criança não existia a palavra "Gordofobia" ou "bullying" e mesmo assim o meu texto está sublinhado aqui, sem reconhecer tais expressões. Eu não era uma criança obesa, mas tinha sobrepeso, sim.
Eu era muito ativa (mas comia carboidrato além do necessário).
Aliás, eu dançava e, modéstia a parte, bem. Não lembro de ficar na segunda fila das apresentações em nenhum dos anos em que dancei  (entre meus 4 e 17 anos sempre me apresentei por aí). Mas eu lembro de muitas coisas que me falavam durante todos estes anos de sobrepeso.
A começar pelas minhas amigas. Hoje, sendo adulta, eu não consigo classificar como maldade as falas delas na época, mas eu consigo ouvir a voz delas ecoando na minha cabeça. Como um "quem sabe se tu emagrecesse...". Assim, do nada. Às vezes eu nem lembro o assunto para que esse tipo de frase se direcionasse a mim porque eu não reclamava para elas sobre meu peso.
Eu sei também que eu sempre fui muito na minha, fui muito nerd, gostava de ler, demorei pra despertar esse negócio de ficar, namorar e etc e pelo meu físico as minhas amigas achavam que eu era lésbica (e nesse caso, zero preconceito delas). Mesmo naquela época, anos 90 ou início dos anos 2000, onde homossexualidade não era tão falada, elas me questionavam se eu gostava de meninas. Eu só dizia que não e nem entendia o porquê dessa pergunta que depois em casa, abraçada nos meus livros eu ficava refletindo: "é por que sou gorda e uso camiseta e não me visto que nem elas?". Só que eram coisas tão sem importância pra mim, que não me abalavam - pelo menos eu achava que não. Às vezes era só curiosidade delas, eu tinha curiosidade em saber como era ser magra, elas deveriam querer saber como era ser gorda. Deveria ser isso.
Uma das poucas vezes que doeu, mas mais por vergonha porque eu fiquei sem reação na hora, foi quando duas amigas estavam sentadas num banco, era inverno, e eu estava com uma jaqueta grande (inverno no RS não é para amadores) e a jaqueta estava aberta porque eu ainda estava com um blusão de lã. Em dado momento as duas amigas saíram e eu sentei onde elas estavam e elas começaram a rir porque ocupei o lugar das duas. Na real tinha lugar para mais uma pessoa, mas eu sou espaçosa, me atirei, minha jaqueta também usou o banco, e eu só fiquei envergonhada da situação e acreditei realmente que ocupei o lugar de duas pessoas naquele banco.
E foi assim que eu comecei a adolescência sem ter vontade de sair para festinhas, sem ter vontade de me arrumar, e já contei aqui sobre as situações das minhas roupas serem diferentes das minhas amigas.
Agora eu na percepção de adulta, vejo que um pouco de tudo que vivi são pequenos traumas. São coisas que eu não falava até porque eu não entendia, que não era sofrível mesmo que dentro de mim acabasse se tornando um caos. E eu nem sabia disso, eu não sabia que em mim estava doendo porque eu tentava não pensar. Porque eu era diferente e eu não sabia que tudo bem em ser diferente. Aliás, como sempre fui bem aceita nos grupos, eu não sabia que existia uma diferença. Eu era popular justamente por dançar, por fazer teatro, por estar metida em tudo que tinha que aparecer. Mas eu não sabia que ter quilos a mais me faria feia e hoje é o que mais luto dentro de mim pra mudar e entender. 
O fato de aparecer, de estar sempre em evidência, de não ter vergonha, de ser extrovertida me faz ser diferente de uma vitima de gordofobia ou de bullying, porque normalmente são pessoas mais introspectivas e enfim, a psicologia explica melhor que eu.
Mas eu sei que fui vítima da gordofobia e, principalmente, porque teve muito mais história além destas que rapidamente contei. Houve rejeição das minhas próprias amigas, houve a vergonha e também teve a minha parcela de culpa por aceitar o lixo que me jogaram (consciente e inconsciente). Lá onde tudo começou eu não sabia o que estava acontecendo.
O bullying muitas vezes é muito mais escrachado (quando ele realmente existe, quando a zoeira passa do saudável - aliás, sempre se perguntem: até quando é zoeira?), ele é mais visto mesmo quando é um ato isolado, como a situação do menino vendedor de geladinho (ou sacolé) que acabou virando notícia (e eu chorei horroreeeeeeeeeeees), já a gordofobia, eu não sei a opinião de vocês, mas eu que passei por ela, me parece ser algo mais cotidiano porque são atos e atos e atos... enquanto tu continua gorda, não importa onde tu vá, tu vai continuar sendo vítima.
Eu digo que fui vítima, porque por mais extrovertida e tudo mais que contei aqui, hoje meu psicológico não aceita aquilo tudo que passei. Eu perdi as contas das noites que chorei por não me aceitar. Fiquei meses ou talvez anos sem me olhar no espelho, sem me reconhecer, tendo que trabalhar meu psicológico pra conseguir me ver hoje em dia e mesmo assim ainda tenho a imagem distorcida. E é um estigma tão meu que eu consigo achar mulheres gordas lindas - e de fato, são- , mas eu, eu não. 
"Ah, Tônia, tu emagreceu!" Contem pra minha cabeça isso! Se eu noto que emagreci? Agora sim, mas foi na base da terapia e não com a visão do espelho.
Se hoje acredito que minhas amigas eram pessoas tóxicas? Talvez, sim! Justamente porque meu psicológico até hoje não sabe lidar com aquilo tudo de informações. Hoje questiono se toda a extroversão não foi uma válvula de escape paralidar com tudo que eu sentia. Eu realmente não sei responder mas também foi muito bom, eu adorava dançar e fazer teatro e isso faz parte de mim até hoje.
Eu não sei somatizar na minha vida quantas vezes eu fui tóxica para outras pessoas também porque enquanto ser humano (e sem paciência como sou), muito provavelmente eu errei muito. E tô falando "tóxico" porque tá na moda porque na minha época era dito "pau no cu".
Lógico que se eu pudesse eu voltaria atrás. Lógico que se eu fiz tão mal a alguém eu queria a chance de me redimir, de pedir desculpas, mesmo sabendo que muitos não fariam o mesmo por mim. Mas consciência é pra quem tem.
E mais uma vez: Tudo bem!
Já diria Caetano que cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é, mas sempre é bom lembrar que você é eternamente responsável pelas palavras que lança ao universo, ao amiguinho ai do lado e que a vida é daqui pra frente porque o passado, este tá lá no lugar dele, né? 
Infelizmente o meu passado ainda se faz presente na minha cabeça e em excesso, porém, essa luta é minha. 
Mas se eu pudesse deixar aqui uma mensagem de verdade, para a vida, para a eternidade, mesmo sendo parafraseando Teddy Correa, eu digo a vocês: permitam que os seus filhos aprendam a ter compaixão.