Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens
Toti

 Li uma reflexão de Charlie Barkley que diz "tão feliz e a escrita definhando. Por que é que é mais fácil dizer, quando sangra?" e pra mim fez todo o sentido.

Há alguns dias soltei no instagram uma reflexão sobre "sentir o limbo". Por que eu não estava triste, estou com saúde, não tenho que superar nada, nem alguém porque estou muito bem com todos os acontecimentos da minha vida. Mas eu também não sentia alegria. Nada me fazia sentido e eu não encontrava motivação em nada.

E dali, algumas pessoas do meu passado foram surgindo falando de terem saudades das coisas que eu escrevia, recebi vários elogios legais e, inclusive, de fazer parte de um livro. Eu reclinei dos convites porque faz um bom tempo que não escrevo nada e eu não consigo sequer pensar em algo pra escrever. E o porquê disso? Porque não dói. Justamente porque eu não tenho nada ardendo em mim para que eu precise transformar em palavras. Eu não escrevo somente coisas minhas quando escrevo, mas o impulso é sempre uma dor.

E não dói.

E isso é motivo para ser grata, logicamente. E a partir do momento que eu disse todos os nãos necessários, minha vida deu uma guinada que eu to até agora sem saber de que lado vem o vento. Eu to muito feliz. Eu tenho uma motivação. Eu tenho um propósito. Esse propósito que busquei durante minha vida toda, que chorei dias e dias a fio, que a falta dele fazia eu acreditar que minha existência era desnecessária.

E nada disso tem a ver com escrever para ter leitores. Nem com escrita. Nem com absolutamente nada. Minha dor parou de doer, tudo o que sangrava foi estancado porque eu precisava me abrir para esse infinito de possibilidades de coisas realmente incríveis pra mim. Hoje eu tenho um propósito que vem diretamente da minha alma e eu não preciso mais falar pra ninguém.

Isso tudo tem me mudado de formas profundas. Eu to mais alegre. Eu tenho brilho nos olhos e isso tem me feito estar diariamente emocionada com tanto. E aí eu fui pra terapaia porque não sou nem louca de estragar esse momento.

Tudo fez ainda mais sentido, eu to com ideias borbulhando em mim. Eu me desprendi de muita coisa, desbloqueei gente, soltei para o universo porque nada mais cabe em mim e na minha vida. Todos que passaram, cumpriram uma missão especial na minha vida e me fizeram ser quem sou, mas agora é hora de ir para frente. 

Hoje mesmo vou fazer uma tatuagem que tem um significado enorme pra mim, sobre o que me importa, sobre o que fica, sobre quem não vai. E é sobre o meu cachorro. Ele me faz ver o lado bom, sem ele eu teria enlouquecido em outros momentos da vida e só eu sei a alegria que dá toda vez que o vejo, mesmo que por foto. E é por toda essa alegria que vou deixar na minha pele a marca do maior amor que tenho na vida, não só pelo Che, mas por doguinhos em geral. Ele simboliza isso tudo.

Sabem, num termino de alguma relação que tive na vida, a última coisa a mim enviada foi uma foto de um dog por qual tenho bastante estima. Eu senti como uma chantagem emocional porque foi o exato momento que a pessoa me excluiu da vida dela. Não penso muito nisso mas eu achei de uma baixeza incrível e se já estava difícil admirar, foi aí que também se for o respeito. E eu tinha respeito pelo quanto a pessoa me fez bem enquanto esteve por perto, quando eu já me encontrava infeliz. Mas seja qual for o intuito que a pessoa usou o dog, não atingiu o esperado e criou um bloqueio que até então não existia.

Não há odio, raiva, nada ruim, mas agora também não há mais nada bom. E eu to em outra fase da vida que já não faço esforço algum pra manter vínculos. Como falei no texto anterior aqui, eu sei muito bem o que passei sozinha, então sequer me acho egoísta. Tá tudo bem, o que era de minha responsabilidade, eu fiz. Agora não carrego mais nada sobre como as pessoas se sentem sobre mim.

Mas são os doguinhos que não deixam eu me esquecer da minha essência e que facilmente estancam minhas dores. E vou deixar isso como marca da minha nova fase porque não há mais nada sobre o passado que eu queira escrever, registrar, deixar na história. 

Faz mais sentido o que sou agora e quem quero me tornar.

s2 demorei muito pra chegar aqui, agora é sustentar s2

Toti

2021 foi um ano bem conturbado pra mim porque eu me perdi totalmente de mim. Iniciei ele magra, cheia de convicções, com uma autoestima ok, com vários projetos profissionais e pessoais. Pela primeira vez na vida acompanhei um BBB com intuito de me alienar mesmo, e assistir vicia porque a gente se envolve e sente. É louco.

Mas depois do primeiro trimestre eu comecei a me perder, a engordar, a perder autoestima, a querer mudar os projetos e com medo de falhar novamente. Muita coisa aconteceu. Iniciei um relacionamento em que fui feliz na maior parte do tempo (mas pois é, também não passou por 2021). 

Eu fiquei maior parte do meu tempo tentando mudar a minha realidade e me perdi. Agora chega o final do ano, finalzinho mesmo. O recesso. E aí que parou para colocar na balança tudo que aconteceu. No frigir dos ovos, a culpa foi minha mesmo. Tinha planos que do nada estou tendo que me desfazer e isso é um tanto doloroso, mas precisa doer agora para me adaptar a nova realidade.

Essa madrugada fiquei sabendo do suicídio de um conhecido, o que me rendeu bastante questionamentos também. Não por mim, longe disso, mas por essa fragilidade da vida e das pessoas e da falta de responsabilidade emocional. E essa falta de responsabilidade é algo que carrego e me culpo, por isso as atitudes que tomei nos últimos dias.

Sei bem o que é sofrimento e não desejo pra ninguém, então, saber que alguém tá triste por minha causa é algo que me corrói de verdade. Nem sou tão religiosa, mas não há um dia que eu não deite na cama e faça uma oração por perdão, inclusive, para eu me perdoar. A gente erra tentando acertar, pelo menos comigo tem sido assim, mas só eu sei o quanto meus erros atingem as pessoas e isso me deixa péssima.

Precisei parar com esse ciclo vicioso de fazer pessoas infelizes porque isso reverbera em mim. Ou o contrário. Quando eu estou infeliz, desconto nos outros e os deixo tristes também. É inconsciente mas mesmo assim, minha culpa, eu sei. Minha meta pra 2022 é saber lidar comigo mesma e vou usar esse tempo de recesso para refletir mais, racionalizar minhas atitudes para evitá-las. Saber reconhecer quando estou sendo essa pessoa tóxica, para evitar que se repita.

Recesso representa tanta coisa. Pela primeira vez em meus 34 anos passarei o Natal sozinha. Não estou triste por isso, não! Mas é estranho ter que me adaptar aos planos que deram errado. E recomeçar é mais estranho ainda, de todas as formas. 

Hoje eu vou ao cinema sozinha e depois tenho terapia, ou seja, pra mim é um dia importante para recomeçar. E sei que é assim que tem que ser. 

Meu passado não pode ficar presente mais. Meu passado, mesmo que seja o ontem, precisa se manter no lugar dele. O que fica é a vontade de reconquistar minha força de antes, buscar dos meus sorrisos que perdi nesses meses. E seguir em frente. 

Hoje eu preciso urgentemente: Evoluir!

Toti

Eu não quero mais falar sobre o ano que passou. Se fosse possível, eu seria apoiadora dos que dizem que foi um surto coletivo e nunca existiu.

Então, bora lá porque é pra frente que se anda. Eu gostei demais do meu “reveião” porque eu pude comemorar com os meus. Faltou um lugar e isso doeu, sim. A vó Nadir ocupa um espaço indizível no peito e certamente essa ausência foi sentida mas eu sei que muitas e muitas famílias (posso dizer: milhares) também tiveram um ou até mais lugares vazios à suas mesas. Também milhares de ausências foram sentidas.

Mas em meu coração eu tenho que minha vó está muito bem porque a alegria que ela transmitiu aqui na Terra certamente tem algum valor e, aliás, eu quero muito esse legado, enquanto eu puder transmitir alegria minha vida estará valendo a pena.

E nessa alegria, eu sendo eu, comprei um “S” no lugar do “2” pra completar o “2021” em balões metálicos e assim fizemos a virada para um ano imaginário. A gente na piada interna já chama de “20z1”. E que seja porque hoje o tempo me interessa pouco, o que me interessa é o instante AGORA.

Da antiga eu sem as minhas curas, fui uma pessoa extremamente ansiosa. Ansiedade como doença mesmo, tendo que ser tratada por 16 anos. Ainda cuido para ela não mais exercer poderes sobre mim mas atualmente eu vivo apenas o momento e todas as emoções que ele pode me trazer. E só. (obs.: cuidar os atos por impulso).

Hoje eu vivo neste ano imaginário onde acredito em dias melhores. Não pela minha fé sobre a vida, mas porque eu tendo a ser otimista nos meus processos de amadurecimento e ressignificação, afinal, o propósito é eu ser alguém melhor pra mim mesma e, consequentemente, para a humanidade (que às vezes acho que nem merece *risos*). Se eu não for otimista, não vejo motivos para tentar e, assim, eu sei que vou ficar nesse mesmo ciclo de reclamações e comodismo e se tem algo que eu não sou é acomodada (reclamona, um tanto, mas já falei que to tentando melhorar, né?).

Eu fiz poucas metas pra 20z1 porque eu precisei muito mais encerrar ciclos do que reiniciar algo em minha vida. E encerramentos doem, mudanças machucam, porém, eu fiz o que eu precisava fazer, não importa o quanto ardesse. E não há mertiolate para o que dói dentro do peito. Mas que doa agora para não doer nunca mais, foi esse meu mantra. Em 20z1 eu posso COMEÇAR. Meu ano imaginário eu posso criar o que quiser, buscar o que quiser e entender a felicidade ao meu modo.

E o mais legal disso tudo é que nesse momento eu sinto meu coração pulando em meu peito. Ah, vida: Muito obrigada!



Toti

 


            Estava lendo há um mês um texto aleatório que estava em algum perfil de facebook sobre as resoluções de ano novo. Que tão importante quanto fazê-las é encerrar os ciclos. Do estilo “para o novo vir o velho tem que ir”. Isso me fez refletir bastante.

            No final de julho deste 2020 eu me encontrava no fundo o poço, um lugar que já havia conhecido antes, só que de alguma forma, dessa vez doía mais. Eu pensava por tudo que já passei e não aceitava sentir a dor. Não queria vivenciar a dor, a raiva e a tristeza que eu sentia porque para mim era sem sentido depois de tanta coisa que já passei.

            Até que a terapia veio bater em minha porta (quase literalmente) e eu fui tentar me ajudar antes de puxar o alçapão que havia no fundo desse poço. E desde então eu estou uma verdadeira metamorfose ambulante. Tive dias bons mas dias muito ruins e doloridos a partir disso.

            E tudo, principalmente, porque eu via coisas se repetindo na minha vida de uma forma assustadora. Eu achava que estava enlouquecendo, comecei novamente a ter crises de ansiedade, choro sem motivos, achar que ia morrer. Nada estava fácil em nenhuma área da minha vida. Eu tive que fazer uma busca interna de onde as coisas me doíam, ardiam, sangravam. E depois de achar, ter que ressignificar. Eu tive que junto a isso cuidar do meu corpo que estava me deixando mau humorada com tantas dores (tenho fibromialgia e, pra quem não sabe, é doença incapacitante passível de receber auxílio-doença pelo INSS e ficar “encostado”/sem trabalhar).

Mas em meio a uma pandemia eu não me dei ao direito de achar que estava doente e, depois do pior aniversário da minha vida, eu tive que tomar a decisão de ser alguém melhor pra mim e fazer com que esses padrões assustadores e repetitivos parassem de acontecer.

Ninguém me contou mas eu descobrir que evoluir, dói. E as coisas na minha vida não se tornaram melhores ou mais fáceis a partir da minha decisão. Muito pelo contrário, os problemas seguiram acontecendo, seguiram me batendo. Comecei a ler mais sobre tudo que eu vinha sentido. Google foi meu melhor amigo sobre ‘soluções’. Por que eu tinha entendido que não adiantava focar no problema e sim, na solução. Foi o que fiz.

Desde meu aniversário até hoje se passaram pouco mais de quatro meses e quando eu paro para me analisar eu falo “PQP, COMO EU MUDEI!”. As percepções, os valores, as ideias e os ideais, meu propósito de vida, meus problemas com a autoimagem. Tudo, absolutamente tudo tem um novo significado pra mim.

Faz apenas 3 dias que comecei a sentir o meu coração mais leve. Tô me sentindo muito uma fênix saindo das cinzas (risos). Mas hoje tomei a decisão de recomeçar a minha vida, com a grande vantagem que eu lembro de cada passo que dei errado, então eu posso escrever um novo capítulo, mudar o meio e o fim. E quando penso nisso meu coração palpita, me sinto viva como nunca antes. E me orgulho de cada cicatriz porque elas gritam pra mim, dizendo que eu sobrevivi.

Sei que pensar assim não vai fazer mágica porque eu vou continuar aprendendo (espero), evoluindo, buscando meu melhor, errando, chorando e enfim, vivenciando o que a vida oferecer, mas sei que não preciso mais repetir coisas que acreditei desde criança, que também terei novas chances. Me apego a isso. Acalmar o coração e a mente (agradeço à meditação que tenho tentado aprender ao longo desses 4 meses) faz com que a visão fique mais clara e eu não sofra com a ansiedade – que também faz mais de quatro meses que não tenho crises – nem com todo medo que eu tinha em mim e a pressão que me colocava sobre fazer as coisas darem certo.

Tenho me moldado todo santo dia, feito muito para me sentir bem e mesmo assim nem sempre é suficiente, mas as coisas estão melhores e eu mais em paz (e a melhor sensação do mundo é a de paz), então eu realmente acredito que as coisas estão dando certo.

Enfim, hoje eu decidi escrever um novo capítulo sobre a minha vida. Talvez isso seja literal. Quem sabe, né? 😉

 

Marcadores: , , 0 latidos | edit post
Toti

 

Eu tenho aprendido um tanto com a vida e da forma mais dura possível, aquela que a dor te atravessa o peito e tu sente na alma. Sei que tenho tendência a dramaticidade, mas não foram poucas às vezes que caí em lágrimas, sem conseguir respirar, achando que o tempo não passava, que eu  estava estagnada, e aquilo parecia que estava moendo minha carne que se separava dos ossos, a dor estava física mas eu sabia que ela estava totalmente no meu psicológico.
A depressão estava batendo à porta. Porque a depressão não é quando você fica triste por terminar com o namorado, ou quando briga com a família e chora, nem mesmo quando você se tranca no quarto por ver um amigo ir embora. A depressão é quando você chora e não encontra qualquer motivo pra isso, é quando custa muito para conseguir sair da cama porque nada mais faz sentido. E aí o corpo reclama.
Eu já passei por isso há 5 anos e graças a muito apoio de amigos e familiares, de médicos e medicamentos e de muita leitura de minha parte, eu consegui sair dessa, mas às vezes um anjinho triste se senta no meu ombro e começa suas lamúrias e eu acabo me apagando novamente.
Percebi que tenho que estar em eterno estado de vigília porque eu nunca sei qual vai ser o gatilho que vai me empurrar para o poço novamente. Mas desta última vez foram pessoas, ou melhor, mais uma vez foram pessoas. E eu percebi que estava na hora de eu ir embora da vida de muita gente.
Filtrar dói. Ir embora quando se quer ficar, dói, mas era importante eu saber o meu próprio valor já que minha existência se tornou indiferente pra muita gente. Não é julgamento, entendam. Muitas das coisas eu mesmo poderia estar colhendo... ou me livrando.
O ser humano é incrivelmente ruim quando quer. Conscientemente ruim porque permanecem em seus atos mesmo magoando as pessoas.
Eu acho incrível a maldade que existe em algumas pessoas que convivi. Todo dia eu vi alguém querendo por qualquer motivo me colocar pra baixo. Isso cansa, sabe? Aliás, também cansa colocar energia em algo que não tem reciprocidade e perceber que aí é um erro a ser dividido. É cansativo separar todo o lixo que me jogam. É exaustivo ver pessoas tão filhas da &#7@ na tua vida, sugando tua alegria, tua vontade de viver. E pior é assistir tudo isso acontecendo na tua frente e tu não conseguir fazer nada, se sentir impotente, inútil, ter vontade de gritar. Pedir ajuda e ninguém ouvir. Tudo exige da gente uma força sobre-humana. O psicológico reage. Os mecanismos de defesa se manifestam. E é assim que a gente mesmo se joga no poço. Eu precisava mudar essa vibração que me estava em ressonância a essas pessoas que tanto me faziam mal.
Mas euzinha, que descobri que o poço tem um alçapão e se pode cair mais fundo, também sabia que tem trampolins pra saltar pra fora, entao, tomei a minha decisão. Cada dor que senti foi minha conselheira, então me permiti sentir cada uma delas. E eu saí do poço da mesma forma que entrei: Sozinha. Comecei a fazer o dever de casa, arrumar minha morada que é meu corpo e minha mente, me afastei de tudo que me fazia mal, recomecei tantos projetos, comecei a olhar pra dentro de mim e olhar com mais carinho pra mim. Levei a sério a terapia, fazendo anotações, lendo, relendo, deixando doer, chorando, morrendo pra poder voltar a viver.
E foi assim que a vida me impulsionou. Foi assim que muitas pessoas ficaram pra trás. Foi assim que cortei o cordão umbilical dos traumas da minha família, entendendo que as dores deles não precisam ser as minhas, foi assim que eu entendi que posso ser uma ótima amiga sem estar disponível 24h por dia pra cada amigo meu. Eu respeitei o fato de eu ser uma só, uma pessoa que precisa dormir, uma pessoa que precisa de atenção mas que essa atenção é dela mesma. Eu aprendi que não sou sozinha mas que é sempre eu por mim. Eu passei a dar valor à coisas banais, ou que pareciam banais mas que faziam de mim uma grande privilegiada. E passei a aceitar meus privilégios sem ter vergonha mas que isso não faz com que eu não tenha que lutar junto daqueles que são vítimas da sociedade de uma forma histórica e de uma forma real. Porque qualquer tipo de discriminação dói e pode fazer cicatrizes profundas.
Eu posso dizer que em pouco mais de um mês eu me tornei muito mais humana. 2020 não tá perdoando ninguém, mas depois de eu ter conhecido certos infernos, não é qualquer demônio que me assusta (essa frase não é minha mas retrata exatamente o que sinto). Todo mundo que conheço tá passando por um tipo de perrengue e ninguém sabe cancelar 2020. Então a gente tem que viver esse ano e, anestesiados que estamos com tantas noticias ruins, o mínimo é se solidarizar com a dor do outro. Pelo menos são as escolhas que faço e observo as escolhas que meus convivas também fazem. É por isso que só aceito na minha vida quem carrega à sua frente um coração. Porque não é fácil amar ao próximo com tanta gente ruim por aí, mas sabem, não sou pretensiosa e longe de mim pretender ser além do que sou, mas com tanta maldade, eu gosto quando as pessoas olham pra mim e enxergam que também há pessoas boas. Eu amo quando abro um grupo de whatsapp e vejo meus amigos discutindo o racismo, a homofobia e tantos assuntos atuais, e vejo eles tão conscientes sobre cada luta. Eu tenho certeza que escolhi os melhores para continuar minha jornada.
E a partir do momento que consegui sentir a gratidão dentro de mim, o tempo começou a passar de verdade. Entendi quando Renato Russo dizia que tempo é o mercúrio-cromo. É o tempo que cura, que ameniza e que faz aquilo que tanto sufocava já não ter mais um valor.
E eu, enquanto isso, estou de parabéns pela quantidade de coisas que aprendi, superei, conquistei, venci e ressignifiquei. Olha, sinceramente, eu to muito orgulhosa da pessoa que, com o tempo - e todas suas tempestades - estou me tornando.

Toti

Eu nunca me considerei uma pessoa nostálgica, porém, isso tem sido um assunto bem recorrente nos meus últimos meses. Talvez por estarmos em meio a uma pandemia, onde eu mesma sinto a falta de abraços sinceros e olhos nos olhos durante as conversas mas, convenhamos, é algo realmente atípico.
Essa semana estava conversando com uma amiga de infância que disse estar com saudades das nossas conversas e dos bilhetinhos que trocávamos durante as aulas. Lembrei, ri, falamos que a época era boa, não existiam boletos nossos, nossa maior preocupação era não perder o capítulo de Chiquititas e aprender as coreografias. Concordamos que foi um tempo muito bom, mas ela falou: que vontade de voltar nesse tempo.
E eu? Eu não!
E vejam, já martelei aqui que embora eu tenha alguns traumas, eu fui uma criança e uma adolescente  feliz. Eu sou um bingo de privilégios. 
Minha primeira crise de ansiedade foi aos 17 anos e lembro que eu só conseguia chorar e chorar. Fui ao médico e simplesmente entrei em desespero porque tinha esquecido a carteira do plano de saúde em casa. Na hora eu pensei que nunca mais ia parar de chorar. Era sem sentido para quem via. Era sem sentido pra mim também, mas aquilo me doía o suficiente para eu chorar sem parar. 
Num pensamento pessimista, essa ansiedade furtou quase 16 anos da minha vida porque minha última crise de ansiedade foi há 4 dias, agora com quase 33 anos e tudo que vivi nesses 16 anos não foram suficientemente bons para eu ter saudade. Mas eu mesma não sou negativa a este ponto. Olhei meu facebook, em álbuns que nem deixo aberto, é só pra armazenar fotos, e eu vivi muita coisa divertida, engraçada, fiz muitos amigos e fiz uma história divertida pra contar pra quem quer que seja.
Talvez eu tenha sido ansiosa por muito tempo que não consigo mais olhar para o meu passado com carinho por estar habituada a sofrer com o excesso do futuro. Não é um bom hábito para se adquirir, sabemos. E também porque muitas e a maioria das pessoas que estão nas minhas lembranças já não estejam mais na minha vida de algum modo, então, lembrar sozinha fica sem graça em alguns momentos porque lembro de como eu acreditava que as coisas eram boas, acreditava nas pessoas e que nada disso mais faz parte de mim, como se eu fosse um brinquedo que se quebrou. Parece triste, mas na verdade eu vejo as pessoas que ainda tenho na vida e eu prefiro estar com elas agora, vivendo novas situações e lembrar juntos de histórias. Eu me vejo sendo muito melhor companhia hoje que antes e é isso. 
De 16 anos pra cá a ansiedade, antes disso a adolescência onde eu tinha vergonha de usar regata para não mostrar meus braços, o não querer sair nos rolês de família ou com amigos porque eu teria que me arrumar e nenhuma roupa que eu tinha eu realmente gostava porque era roupa de "gente gorda". E é isso que me faz não querer voltar no tempo também.
Lembro que em 2009 meus colegas estavam ansiosos, extremamente ansiosos, para a nossa formatura. Eu? Eu estava desesperadamente ansiosa para o dia pós formatura, onde tudo já teria passado, onde eu teria que começar a estudar para a prova da OAB que eu acabo lembrando mais da minha formatura pelas fotografias e pelo que meus amigos e colegas contam quando conversamos do que por eu ter vivido aquele momento. 
Vocês sabem o que é assistir a própria vida passar diante dos olhos? Eu estava lá, eu fiz a história mas minha cabeça não. Eu tenho sentimentos pelos dias que vivi, mas minha guerra interna não quer viver novamente os conflitos.
Existe um coração trincado partido ao meio
Existem meios e existem fins
Há demônios em mim cantando
Em coro alegre
De ontem em diante (obrigada pela frase, Anitelli) eu acho que comecei a ter nova visão das coisas depois de uma sessão terapêutica bastante esclarecedora (aliás, façam terapia!) que eu sei que não poderei mais ser a mesma pessoa depois disso tudo.
Se me assusta? Sim!  Mas eu to em busca de viver minhas experiências, de estar com minha cabeça no hoje, de nunca mais sentir falta de ar, aperto no peito, a língua amortecida, achar que vou morrer sozinha. Eu já busquei inúmeros tipos de ajuda pra parar de alimentar meus monstrinhos internos que se alimentam da tristeza. E a nostalgia me leva à tristeza.
Busco viver de um modo que meu passado não doa pra eu poder visitar de forma leve. Quero me livrar das culpas que carrego pelas escolhas que fiz. E isso vai levar um tempo, porém, nesse mesmo tempo eu quero apreciar o meu caminho e em algum momento conseguir sentir novamente minha respiração e meu coração batendo no peito. E vejam: eu acho que estou indo bem!

Toti

Minha turma de amigos parece um grupo de apoio porque é só gente psicologicamente transtornada, com problemas graves na família, gays, negros e pobres. Os privilegiados, tipo eu, são poucos.
Ah, e antes que me perguntem: sou hetero e tudo bem você TAMBÉM não acreditar, porque meus amigos mesmo não aceitam.
Essa semana sofri um assédio virtual, que me fez chorar, me fez tremer, me fez sentir culpa, mas no fim eu vi que é só a fragilidade de um macho escroto e hetero falando mais alto. Fato é que nunca tinha passado por situação que me deixou tão triste pela falta de respeito. A máxima que homem só respeita homem.
E aqui não vamos generalizar, ok? Eu tenho amigos maravilhosos que lutam contra o machismo e toda forma de opressão, que são pais de verdade e sabem que não merecem um selo de superpai porque estão apenas representando seus papéis: pais.
Homem que limpa casa, cuida dos filhos - principalmente da higiene - veste, troca fralda é apenas pai e pronto.
Mas voltamos aos escrotos, a fragilidade do homem hetero ao lidar com a rejeição, por exemplo, transforma ele na sua essência, um mau caráter, um ser ridículo e limitado, desrespeitoso e que não sabe lidar com mulher ou sentimentos.
E sei que isso é muito, mas muito comum.
Semana passada minha comadre, mãe do Pedro, veio ansiosa, nervosa e me perguntou:
- Tônia, eu não vou saber lidar se o Pedro for hetero! Meu deus, E SE O PEDRO FOR HETERO?
Eu ri, ri muito porque achei maravilhoso o questionamento. Aliás, pra muitos eu sei que é uma aberração, pra mim uma pergunta maravilhosa.
- Evelyn, se o Pedro for hetero, iremos criá-lo pra respeitar qualquer ser humano assim como a gente faz. Se perguntarem pra ele se ele é gay? Ele vai decidir na hora a resposta como mecanismo de defesa.
Devo deixar a observação aqui que a Evelyn quando me conheceu tinha certeza que eu era, NO MÍNIMO, bissexual, e somos basicamente melhores amigas, confiamos muito uma na outra. A pergunta dela mudou nadinha da minha segurança quanto minha orientação sexual. Até porque não foi a primeira vez e também não foi a última.
Um dos nossos primeiros abraços. Casal? Não!


Eu sou madrinha desse serzinho mas pós vacina do corona sair eu vou ser bem mais presente na vida dele. E se o Pedro for hetero a dinda vai mostrar que respeito é bom e todo mundo gosta, dinda vai mostrar que todo caminho a gente leva um coração à nossa frente. Se o Pedro for gay, a dinda vai ensinar que ele precisa ser ainda mais forte porque o ser humano é cruel, mas que ele vai ser feliz independente do que o mundo oferecer e dizer que ele não pode. Ah, porque ele pode tudo, sim!
A mamãe e a dinda vão estar sempre por ele, no que ele quiser, precisar e vier a ser.
Sabem, existe uma frase que é perfeita para esse desfecho: A DEMANDA DO MUNDO É AMAR.
E eu amo meu gurizinho Pedro. E ele vai amar acima das coisas.
Toti
Eu tenho saudade.
Não vou propor baixo astral no último dia de 2019. O ano foi ruim em si, não contava que ele levaria também o coração dourado da mana que tinha os pelos mais macios do universo. Aqueles pelos eu acho que nunca mais vou encontrar iguais. Pode ser que exista, mas eles não terão o mesmo amor e a mesma ternura da Brida.
Ternura? Quem usa essa palavra em pleno 2019? Bom, eu! É a arte de  ter 32 anos e não conseguir palavra melhor pra descrever.
A Brida era especial por si só. Não só por esses pelos macios, os mais macios do universo, mas porque ela era engraçada, fofa e chata. Eu não consigo conceber que 2019 me aprontou essa de tirar ela de mim. Mas tirou. A gente sabe que a vida de cachorros são breves. Foram 13 anos apenas, bem vividos para ela, mas passou rápido demais para a gente.
Lembro do dia que a adotei, 3/04/2006. Ela tinha 23 dias e cabia na palma da minha mão. Foi assim que a trouxe pra casa. Mas eu não lembro quando foi a última vez que a vi.
Eu só não quero acabar 2019 sem deixar registrado que a Brida foi a coisinha mais macia que minhas mãos tocaram, que eu sinto saudade dos guinchos inacabáveis pedindo comida, de toda a chatice que ela era mas que me colocava um sorriso na cara.
Eu sempre tive cachorros. Acho que nasci no meio deles. Minhas lembranças mais remotas na vida são ao lado de cachorros e sempre são lembranças alegres. A parte chata de ser adulto é justamente entender essa brevidade, conviver com a saudade, viver de lembranças.
Por toda sorte do mundo eu tenho o Che que é minha alegria diária. Aliás, ele está aqui nos meus pés enquanto estou escrevendo e às vezes me questiono sobre as lembranças que ele tem da Brida. Eu não sei como funciona na cabeça dele.
Hoje é 31/12 e já estou com raiva porque alguns vizinhos já soltaram fogos. Che não gosta. Brida morria de medo, a Luva tinha pânico, Tofi mesma coisa... todo histórico de cachorros que tive entravam em pânico nessa data. Aqui em casa já fizemos de tudo pra aliviar o medo deles. Algumas horas atrás eu abracei o Che e ainda disse: a mãe protege. E fico pensando nesse bando de filho da puta (não to pedindo perdão pela expressão porque é o que são) que abandonam seus animais ou simplesmente os deixam sem qualquer amparo.
E aí eu volto a pensar que eu queria a chance de passar a mão nos pelos mais macios do universo nem que fosse por uma última vez.
Eu não quero lembrar de 2019 mas da minha Brida, eu nunca, em hipótese alguma eu vou esquecer.
Tenho saudade, mana.
Toti

Quando eu era criança não existia a palavra "Gordofobia" ou "bullying" e mesmo assim o meu texto está sublinhado aqui, sem reconhecer tais expressões. Eu não era uma criança obesa, mas tinha sobrepeso, sim.
Eu era muito ativa (mas comia carboidrato além do necessário).
Aliás, eu dançava e, modéstia a parte, bem. Não lembro de ficar na segunda fila das apresentações em nenhum dos anos em que dancei  (entre meus 4 e 17 anos sempre me apresentei por aí). Mas eu lembro de muitas coisas que me falavam durante todos estes anos de sobrepeso.
A começar pelas minhas amigas. Hoje, sendo adulta, eu não consigo classificar como maldade as falas delas na época, mas eu consigo ouvir a voz delas ecoando na minha cabeça. Como um "quem sabe se tu emagrecesse...". Assim, do nada. Às vezes eu nem lembro o assunto para que esse tipo de frase se direcionasse a mim porque eu não reclamava para elas sobre meu peso.
Eu sei também que eu sempre fui muito na minha, fui muito nerd, gostava de ler, demorei pra despertar esse negócio de ficar, namorar e etc e pelo meu físico as minhas amigas achavam que eu era lésbica (e nesse caso, zero preconceito delas). Mesmo naquela época, anos 90 ou início dos anos 2000, onde homossexualidade não era tão falada, elas me questionavam se eu gostava de meninas. Eu só dizia que não e nem entendia o porquê dessa pergunta que depois em casa, abraçada nos meus livros eu ficava refletindo: "é por que sou gorda e uso camiseta e não me visto que nem elas?". Só que eram coisas tão sem importância pra mim, que não me abalavam - pelo menos eu achava que não. Às vezes era só curiosidade delas, eu tinha curiosidade em saber como era ser magra, elas deveriam querer saber como era ser gorda. Deveria ser isso.
Uma das poucas vezes que doeu, mas mais por vergonha porque eu fiquei sem reação na hora, foi quando duas amigas estavam sentadas num banco, era inverno, e eu estava com uma jaqueta grande (inverno no RS não é para amadores) e a jaqueta estava aberta porque eu ainda estava com um blusão de lã. Em dado momento as duas amigas saíram e eu sentei onde elas estavam e elas começaram a rir porque ocupei o lugar das duas. Na real tinha lugar para mais uma pessoa, mas eu sou espaçosa, me atirei, minha jaqueta também usou o banco, e eu só fiquei envergonhada da situação e acreditei realmente que ocupei o lugar de duas pessoas naquele banco.
E foi assim que eu comecei a adolescência sem ter vontade de sair para festinhas, sem ter vontade de me arrumar, e já contei aqui sobre as situações das minhas roupas serem diferentes das minhas amigas.
Agora eu na percepção de adulta, vejo que um pouco de tudo que vivi são pequenos traumas. São coisas que eu não falava até porque eu não entendia, que não era sofrível mesmo que dentro de mim acabasse se tornando um caos. E eu nem sabia disso, eu não sabia que em mim estava doendo porque eu tentava não pensar. Porque eu era diferente e eu não sabia que tudo bem em ser diferente. Aliás, como sempre fui bem aceita nos grupos, eu não sabia que existia uma diferença. Eu era popular justamente por dançar, por fazer teatro, por estar metida em tudo que tinha que aparecer. Mas eu não sabia que ter quilos a mais me faria feia e hoje é o que mais luto dentro de mim pra mudar e entender. 
O fato de aparecer, de estar sempre em evidência, de não ter vergonha, de ser extrovertida me faz ser diferente de uma vitima de gordofobia ou de bullying, porque normalmente são pessoas mais introspectivas e enfim, a psicologia explica melhor que eu.
Mas eu sei que fui vítima da gordofobia e, principalmente, porque teve muito mais história além destas que rapidamente contei. Houve rejeição das minhas próprias amigas, houve a vergonha e também teve a minha parcela de culpa por aceitar o lixo que me jogaram (consciente e inconsciente). Lá onde tudo começou eu não sabia o que estava acontecendo.
O bullying muitas vezes é muito mais escrachado (quando ele realmente existe, quando a zoeira passa do saudável - aliás, sempre se perguntem: até quando é zoeira?), ele é mais visto mesmo quando é um ato isolado, como a situação do menino vendedor de geladinho (ou sacolé) que acabou virando notícia (e eu chorei horroreeeeeeeeeeees), já a gordofobia, eu não sei a opinião de vocês, mas eu que passei por ela, me parece ser algo mais cotidiano porque são atos e atos e atos... enquanto tu continua gorda, não importa onde tu vá, tu vai continuar sendo vítima.
Eu digo que fui vítima, porque por mais extrovertida e tudo mais que contei aqui, hoje meu psicológico não aceita aquilo tudo que passei. Eu perdi as contas das noites que chorei por não me aceitar. Fiquei meses ou talvez anos sem me olhar no espelho, sem me reconhecer, tendo que trabalhar meu psicológico pra conseguir me ver hoje em dia e mesmo assim ainda tenho a imagem distorcida. E é um estigma tão meu que eu consigo achar mulheres gordas lindas - e de fato, são- , mas eu, eu não. 
"Ah, Tônia, tu emagreceu!" Contem pra minha cabeça isso! Se eu noto que emagreci? Agora sim, mas foi na base da terapia e não com a visão do espelho.
Se hoje acredito que minhas amigas eram pessoas tóxicas? Talvez, sim! Justamente porque meu psicológico até hoje não sabe lidar com aquilo tudo de informações. Hoje questiono se toda a extroversão não foi uma válvula de escape paralidar com tudo que eu sentia. Eu realmente não sei responder mas também foi muito bom, eu adorava dançar e fazer teatro e isso faz parte de mim até hoje.
Eu não sei somatizar na minha vida quantas vezes eu fui tóxica para outras pessoas também porque enquanto ser humano (e sem paciência como sou), muito provavelmente eu errei muito. E tô falando "tóxico" porque tá na moda porque na minha época era dito "pau no cu".
Lógico que se eu pudesse eu voltaria atrás. Lógico que se eu fiz tão mal a alguém eu queria a chance de me redimir, de pedir desculpas, mesmo sabendo que muitos não fariam o mesmo por mim. Mas consciência é pra quem tem.
E mais uma vez: Tudo bem!
Já diria Caetano que cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é, mas sempre é bom lembrar que você é eternamente responsável pelas palavras que lança ao universo, ao amiguinho ai do lado e que a vida é daqui pra frente porque o passado, este tá lá no lugar dele, né? 
Infelizmente o meu passado ainda se faz presente na minha cabeça e em excesso, porém, essa luta é minha. 
Mas se eu pudesse deixar aqui uma mensagem de verdade, para a vida, para a eternidade, mesmo sendo parafraseando Teddy Correa, eu digo a vocês: permitam que os seus filhos aprendam a ter compaixão.



Toti
Acho que esse negócio da foto deveria ter dado certo, viu? Foi a melhor ideia que já tive.
Quem me conhece, o mínimo que seja, sabe que tenho uma briga enorme com a minha profissão. Hoje tenho um respeito enorme por ela porque, parafraseando Sobral Pinto, aprendi que realmente não é uma profissão para covardes. 
Nunca fui covarde, mas nunca me encontrei dentro da advocacia. Ao menos, não havia me encontrado até então. Meu senso de justiça sempre foi gritante desde criança e, logicamente, quando a gente é adolescente acredita que pode mudar o mundo.
Mas aí quando a gente realmente cresce - vira adulto - começa a perceber que tipo de mundo a gente quer mudar e, quando fiz minhas escolhas eu vi que talvez eu poderia ter mudado o meu mundo com a literatura, com a escrita, com a cultura. E depois de tantos anos de experiência e tantos anos de "sangue e América do Sul", percebo que viver disso no Brasil também é uma piada tamanho desrespeito pelas classes.
Sábado fui à Feira do Livro de Porto Alegre e ao final participei de um sarau. Minha vontade foi de tirar um ano sabático só para ler os livros indicados. Absorver as informações e adentrar nas histórias e sair do meu mundo. E sair do Brasil da única forma que poderia hoje em dia. 
Mas voltando à advocacia, por vezes eu terceirizei a escolha do curso. Por vezes eu sentia tanta culpa em ter feito essa escolha que eu dizia que ela não era minha, que eu me vi sem alternativas. Ou era o Direito, ou era morrer de fome no futuro, porque eram o que me apresentavam da profissão que eu queria tanto na época (Artes Cênicas).
Pois veja, viver do Direito não é tão fácil assim. Às vezes me pego pensando onde estaria se estivesse feito Artes Cênicas e acho que a resposta seria: Se eu tivesse optado pelo Direito hoje eu dia eu seria rica.
Só isso! Seria uma infeliz iludida.
Depois já não queria tanto assim as Artes Cênicas. No 5º semestre de Direito pensei em mudar para o Jornalismo. Eu repudiava (não que eu goste hoje em dia, longe disso) a formalidade do Direito, aquilo não era pra mim (e ainda não é). E aí fui conhecer o curso de Jornalismo e me deparei com o que? Com toda uma formalidade, tanto na escrita, quanto ao impostar a voz (tá certo esse verbo, impostar?) e pra piorar minha vida, tinha câmeras. Mesmo que não viesse a trabalhar com isso, eu ia ter que passar por isso durante a faculdade e, claramente, preferia toda a formalidade do juridiquês do que ficar em frente às câmeras naquela época.
Então minha ideia foi: vou terminar o Direito e, quando estiver estável, vou fazer a faculdade que eu quiser!
Não que hoje eu esteja estável, muito pelo contrário, mas só em pensar em fazer uma outro curso meus ossos já querem se soltar da carne. Tô na minha segunda pós graduação. Tenho pensado demais na minha vida profissional, quero ser melhor nela. Tive experiências ruins ao longo desses anos mas no final, se eu analisar, a carga de vida que trouxe pra mim, ninguém me tira, então nem dá pra considerar ruim tais experiências.
Teve uma experiência que acredito que devo compartilhar, porque a vida é uma caixinha de surpresas. Eu estava aguardando para fazer uma audiência e minha cliente levou o filho dela, de aproximadamente cinco anos, junto para audiência porque não tinha com quem deixá-lo e tudo bem. Nós estávamos aguardando a pauta e ela foi ao banheiro e a criança ficou sob meus cuidados e me ofereceu um chiclete. Eu aceitei porque estava com um gosto ruim na boca e veio a calhar. Só que o chiclete da criança eram daqueles que pintam a língua e assim que coloquei o chiclete na boca, tanto minha língua quanto meus dentes ficaram azuis e minha audiência era a próxima. Aquele dia foi complicado manter o respeito, e vi que não foi uma boa escolha eu ter aceitado chiclete da criança (queria dizer que eu ri demais quando vi meus dentes no espelho mas eu não tinha o que fazer quando me chamaram e minha cliente estava ciente do ocorrido).
E assim como ter aceitado aquele chiclete, talvez eu tenha feito realmente péssimas escolhas após ter me formado e não do curso que fiz. Acredito que essa é a minha realidade. O Direito não tem culpa, ele me rendeu tantas xícaras de café que eu não sei o porquê o culpei tanto. Talvez porque eu queria ser uma jedi e uma jedi não pude ser, mas nem sempre as coisas são como a gente planeja, né?
De verdade, eu estou numa fase que eu não sei muito sobre o meu futuro profissional mas eu posso dizer que com o meu trabalho eu ajudei muita gente e só por essa conclusão eu sei que tudo que passei valeu a pena.
Que eu possa fazer melhores escolhas daqui pra frente!

Toti
Se alguém estiver se perguntando se eu estava chorando no momento da foto atual, a respostá é sim. Na foto da Tônia de 31 anos atrás ela deveria estar feliz e fazendo um brllllrrbrllll  qualquer, crente que estava imitando um carro de verdade, e ainda babando o mundo porque além de comer e dormir, babar também era uma de minhas especialidades.

Talvez naquela época também eu dirigisse melhor que hoje. Fica a dúvida.

O fato é que olhando essa foto eu consegui sentir um amor, um amor tão profundo, tão forte, que me apertou a alma, sabem? Talvez muito de vocês não saibam porque eu acho que sou uma grande sortuda nesse quesito. Eu sou um ser tão amado, mas tão amado que isso atravessa meu coração. Freud não teria a quem culpar por meus traumas da vida adulta.

Eu olhar pra essa foto de criança é me sentir o ser mas feliz e até idolatrado. Eu sei que muito provavelmente não fui planejada, mas eu fui amada pelos meus pais desde o primeiro instante. Se eu puxar lembranças remotas, eu consigo ouvir algumas pessoas cantando musiquinhas para me acalmar quando eu sentia dores, talvez cólicas, talvez desconforto com os dentes nascendo. Eu não sei. Mas eu fui amada demais.

Meu pai, poxa! Eu vejo tantos "abortos" de pais. Esses que abandonam as mães quando descobrem que elas estão grávidas. Meu pai pai é aquele que eu vejo marejar os olhos em cada despedida  quando venho pra minha casa. É o que pergunta se tá faltando algo e que trabalha feito um louco com medo inconsciente de que me falte algo mesmo eu tendo já 32 anos. E que ficou com meu cachorro - o grande amor da minha vida - quando eu estava totalmente perdida na vida sem nem pestanejar ainda me ameaçando se eu ousasse trazer ele de volta. E SE VOCÊS VISSEM O QUE É O AMOR DO CHE E DO MEU PAI. Minhas lembranças mais remotas com meu pai é ele sendo mais criança que eu, me chutando bola, me jogando casca de banana pra dar susto, me colocando na garupa pra ir passear ver peixes e tartarugas, me ensinando errado propositalmente o nome das coisas pra depois rir demais da minha cara e ver eu cruzando os braços pistola porque acreditei nele. Bullying? Não! Meu pai é o palhaço que todo mundo gostaria de ter em casa. É aquele que ensinou a amar os bichos, a organizar as coisas (essa parte eu fiquei devendo), a zoar.

Minha mãe? Minha mãe foi a que eu culpei pelos meus próprios erros, a que aguentou no osso a minha aborrecência, a que me ensinou a ser livre, a amar a tudo, a todos, que a gente tem que se encontrar do jeito que somos, que tem um senso de humor fora do comum, que ensina os sobrinhos a fazer as peripécias, a que tem disposição pra tudo a hora que for, que enxerga a parte engraçada da vida nos piores momentos.

Foi nesse berço que nasci.

E agora eu olho para aquele bebê naquele carrinho e eu queria dizer pra ela ter orgulho de mim. Pequena Tônia, você não sabia pelas tantas coisas que a gente passaria na vida. Nossa mãe há poucos dias me disse que você era esperta porque você não tinha sonhos, você vivia um dia de cada vez. Você não queria ser alguma coisa quando crescesse. Eu disse ainda: que tipo de criança sem ambição nós éramos? Você era tão esperta! Meu deus, você ria de tudo!

Sabe aquele amor por cachorros? Nós ainda temos! Hoje nós temos um cachorro chamado Che. Eu sonhei com ele quando nós tínhamos 16 anos de idade. Eu dizia que quando tivesse minha vida teria um cachorro chamado Che. E eu consegui. Ele é o nosso grande amor e você certamente riria com os mesmos brilhos nos olhos se o visse.

Sabe baby Tônia, a vida algumas vezes foi cruel. A maioria das pessoas não sabem das vezes que deitei no travesseiro e derramei tantas lágrimas de medo do futuro. Eu desenvolvi ansiedade. Eu tive crises horríveis. Eu achei que ia morrer e algumas vezes eu verdadeiramente quis morrer pra não sentir mais aquilo. Pequena, eu senti tanto medo. Eu me senti um fracasso. E esse talvez tenha sido o pior sentimento que experimentei. Você na sua motoca que corria solta pelo pátio do vô Marino nem sonharia com isso. Lembra que cavávamos o pátio com uma colher procurando ossos de dinossauro? Eu desejei por vezes voltar àquela época pra tirar do peito tanta dor que eu sentia. Eu comi as minhas dores. Comi mesmo.  Sem ver eu engordei 40kg em questão de meses.

Estranho, né? Mas a vida não perdoa. E no frigir dos ovos, pra curar essa fase, eu passei 11 dias numa cama de hospital sem saber  se sairia realmente viva. Eu vi quem tanto nos ama chorar por nós. E eu senti tanto, tanto, tanto. Eu senti todo aquele amor novamente. Eu sentia ódio de quem me deixou assim. Eu sentia dor por quem tinha que me ver assim. E eu não sabia o que pensar sobre nossos pais, era tão injusto. Eu queria viver por eles.

Mas pequena Tônia, hoje vendo seus olhinhos sorrindo nessa foto, eu quero dizer que eu me perdoei por ter chegado nessa fase, eu perdoei por todas minhas falhas que carreguei durante 10 anos, ou talvez mais. Eu acho que vivi um limbo que nem sei exatamente o que aconteceu. E de agora em diante eu respeito a nossa história. A nossa história é grande, sabe? Porque nós somos, mais que qualquer outra coisa, sobreviventes.

Meu corpo hoje tem cicatrizes. Elas não são bonitas mas eu não vou tirá-las. São elas que dizem que eu sobrevivi. Que nós sobrevivemos.

Pequena! Eu quero buscar de volta o teu sorriso. Eu não sei como faz isso mas nos últimos dias eu tenho visto que as pessoas me amam daquela mesma forma. Eu só não preciso delas da mesma forma que você sobre os primeiros passos, palavras, emoções. Hoje eu descobri que eu posso voar pra muito longe e a realidade é que eu quero isso, eu quero voar. Eu descobri que criei asas lindas. E enquanto houver saudade eu sempre vou voltar.

Ay, mi familia

Oigan mi gente

Canten a coro nuestra canción

Amor verdadero nos une por siempre

En el latido de mi corazón