Toti



Sou inconstante. A rotina me entedia e eu com tédio sou um ser tão pouco amistoso que o fato de eu morar só é uma benção aos demais seres humanos.

Eu trabalho em casa, vivo em casa, faço tudo em casa. Tem semanas que não vejo absolutamente ninguém, esqueço meu tom de voz, se eu não me reinventar acredito que enlouqueço. A solidão vicia também e é bem difícil sair desse buraco porque de fato, a gente não quer. Ter que lidar com o ser humano é maçante e eu não sou o que se pode chamar de anjo. Tem horas que meus olhos reviram tanto que enxergo minha nuca. Sou campeã de dar respostas atravessadas, ou as famosas patadas, das quais não me orgulho, das que tanto me advertem e que eu faço tudo pra mudar.

Eu tenho mordido tanto minha boca nos últimos meses que to ficando sem pele, mas, né? Chega um momento da vida que a gente tem que se propor a mudar, por nós mesmos. Sei lá se é amadurecimento, evolução ou perda de tempo, mas também com isso tem momentos que eu percebo que eu me estresso por nada. Tem coisas/pessoas que não valem a ruga da tua testa.

O fato de eu odiar rotina não quer dizer que eu leve uma vida desregrada. Muito pelo contrário, principalmente pelo fato de trabalhar em casa. Eu sou procrastinadora. Se eu não tiver minhas próprias regras, para alguém que trabalha com prazos, vai ficar para os 45 do segundo tempo e é uma autossabotagem “daquelas” para uma ansiosa.

Não é a toa que eu tô sempre inventando algo para fazer. O problema é que nem sempre me dou bem porque eu tenho zero dons naturais para artes manuais. 


Cozinhar? Nem brinque! É uma vergonha porque não tenho tino para as coisas. Eu esqueço absolutamente tudo e também tenho preguiça. Nenhuma receita que diga “3 claras” vai realmente 3 claras. Aos meus olhos está escrito “3 ovos” porque é o que vou colocar. Não tenho paciência para ficar separando parte branca na parte amarela do ovo. Aliás, eu nem gosto de ovo. A receita já está toda errada.

“Pré-aqueça o forno”. Ah, não! Vai com o forno frio mesmo porque isso deveria estar escrito antes dos ingredientes.

Eu não sei colorir, então aqueles livros de mandala antiestresse só serviam pra me estressar mais. Eu não via a hora de terminar, ficava pistola com tanto detalhe, ansiosa para terminar, não conseguia dormir e era rabisco de direita pra esquerda e de cima pra baixo que nem criança no jardim de infância. Às vezes acho que meu cérebro não saiu de lá, às vezes acho que estou ofendendo as crianças pensando assim.

Mas tem coisas que vão bem. Leitura (quando eu realmente quero ler), quebra-cabeça (com música ao fundo para meu cérebro não cansar) e a escrita. A escrita é minha válvula de escape sobre o mundo. Tem substituído um terapeuta enquanto não estou podendo ter consultas regulares.

Meu problema é justamente o tédio versus a distração. Eu não gosto de filmes, raramente me prendo a séries. Televisão é supérfluo, serve para eu ver futebol. Tive que moldar muito meus dias para meu corpo não começar a ser confundido com o colchão porque deitar vira uma coisa viciante também.

Eu tenho horário pra tudo, mesmo que seja todo ao contrário do trabalhador normal. Sempre rendi mais a noite no meu trabalho, nos estudos, enfim, em tudo, então eu deixo meus prazos para este horário. Nem por isso deixo de acordar cedo. Tenho me policiado para dormir de madrugada, pelo menos 5h dela (quem me conhece sabe que tenho insônia, 5h tá lindo). Às vezes eu acordo cedo pra ficar um tempo sem fazer nada, mas é isso. É o tempo que vocês usam pra olhar a novela das 21h. 

E é a partir desse momento que eu começo a me reinventar porque preciso estar atenta ao celular já que o horário comercial não pode ser mudado. E é isso. Eu não conseguia colocar as pessoas dentro da minha vida Andei por algum tempo afastada de todos e depois não conseguia mais voltar. “tá triste??”. “não!”. Eu só não sabia como encaixar minha vida na vida das pessoas. E depois já não queria mais.

Sei que tenho uma vida incomum de 90% (dados retirados da fonte EU) da classe trabalhadora, apesar que o home office tem ganhado cada vez mais espaço e é até sonho da maioria das pessoas. Não sei se é um privilégio já que eu queria consertar tanta coisa dentro dessa “rotina” mas nos dias frios e de chuva eu sou mais grata por não precisar sair.

O que que eu posso dizer é que eu não consigo ser uma coisa só, fazer todo dia o mesmo, ter agenda pra tudo. Eu tenho que ter tempo para meus impulsos, para ver o pôr-do-sol do Guaíba (recomendo), ou onde for, pra colocar o tênis e o fone de ouvido e sair correr do nada.

Aliás. Seja racional para falar com as pessoas, para tratar de seus sentimentos, mas pelo menos uma vez na vida, ou uma vez por mês, faça algo (que não seja crime) por impulsividade. Independente de suas crenças, às vezes vale crer que só se vive uma vez.